Introdução
Neste diário, irei descrever todo o passo a passo da construção do violão no estilo Torres que será montado durante as aulas de Luteria Acústica I, ministradas no Curso de Luteria da UFPR. Já montei um violão neste estilo durante o primeiro ano da faculdade, e o grande desafio deste segundo violão é construir o mesmo violão que montei no primeiro ano, porém desta vez durante um semestre (15 semanas) e não durante um ano inteiro como foi feito no ano passado.
A primeira etapa da construção foi a compra da madeira, e nos baseamos em uma lista de materiais que recebemos no início do ano passado, sendo a única grande diferença que desta vez optei por fazer o tampo do violão de abeto ao invés de marupá como no meu último violão. O tampo de abeto possui um equilíbrio entre a flexibilidade e a resistência, muito apreciada para os instrumentos musicais. Sendo macia o suficiente para vibrar e produzir um som bonito e ao mesmo tempo resistente o suficiente para resistir à tensão das cordas.
Tabela 01 – Lista de madeiras necessárias para a construção
| Madeira | Tamanho (mm) | Parte do violão |
| Abeto | Tampo para violão* | Tampo |
| Imbuia | 550 x 180 x 40 | Fundo |
| Imbuia | 800 x 90 x 40 | Laterais |
| Cedro | 600 x 80 x 40 | Braço |
| Ipê | 500 x 70 x 20 | Escala |
| Ipê | 250 x 40 x 20 | Cavalete |
- O tampo foi comprado em uma loja especializada para luteria, e a compra não é feita por metro, mas as peças já vêm com tamanhos específicos para a sua finalidade.
Imagem 01 – Prancha de Imbuia comprada para a construção do violão.

Construção da caixa acústica
Começamos a construção da caixa acústica do violão cortando a prancha de imbuia em partes mais estreitas e finas para fazer o fundo e as laterais do corpo do violão. E apesar desta prancha estar com uma aparência bem bonita na imagem 01, quando abrimos a peça descobrimos que havia muitos nós, furos, fungo e ainda muito brancal, e infelizmente conseguimos aproveitar a peça bem menos do que gostaríamos.
Tanto o fundo como as laterais são cortadas com uma técnica chamada de “book matching”, que consiste em cortar a peça ao meio no sentido das faces, e depois abrir as duas peças como se fossem um livro, desta forma se consegue um desenho simétrico em ambos os lados das laterais e também do fundo, que é feito de duas metades coladas.
Para colar as duas metades do fundo do violão, primeiro deve-se plainar a lateral a ser cortada de tal forma que as duas metades se encostem e não passe nem um raio de luz pela emenda. Para planar esta lateral, coloca-se o fundo em uma superfície um pouco elevada e usa-se a plaina apoiada na sua lateral, como pode ser visto na imagem 02. O grande segredo para conseguir planar bem é regular a plaina até a lâmina não sair mais da fresta na sua base, então se baixa um pouco a lâmina e testa, e vai repetindo o processo até ela começar a tirar uma lasquinha bem fina. Quanto menos material a lâmina tirar, mais fácil será conseguir acertar o encaixe.
Imagem 02 – Planando a lateral a ser emendada do fundo.

Para colar as duas metades uma na outra, pode-se usar várias técnicas. O professor atual simplesmente passou cola nas duas metades e usou fita crepe para manter as duas metades pressionadas uma contra a outra. Eu preferi usar uma técnica que nos foi passada por um outro professor no ano passado, pois acredito que, usando a técnica dele, se consegue colocar um pouco mais de pressão na emenda de ambas as lâminas.
Esta técnica consiste em colocar uma tabuinha fina (poucos milímetros) sobre a mesa e colocar ambas as lâminas com a parte a ser emendada sobre essa tábua. Então se fixa um calço nas duas laterais opostas à emenda, desta forma, como ambas as lâminas estão inclinadas em um leve grau, o espaço entre os dois calços é um pouco menor que o das duas lâminas emendadas. Depois, se passa cola em ambos os lados da emenda, se remove a tábua embaixo da emenda e, quando se empurra as duas lâminas para ficarem rente à mesa, os dois calços exercem uma pressão na emenda recém-colada. Como há pressão entre as duas lâminas, elas têm uma tendência de escapar para cima, sendo sempre importante pôr um peso em cima ou fixar com grampos.
Imagens 03 – Colando as duas metades do fundo do violão



Após coladas, removi o excesso de cola e passei o fundo e as laterais na lixadeira de rolo para deixar com aproximadamente 2 mm de espessura. É importante que a espessura das laterais seja bem exata, pois na próxima etapa elas serão dobradas no formato do corpo do violão, e qualquer mínima variação na espessura pode atrapalhar bastante na hora de dobrar as laterais uniformemente.
Para isso, se usa uma ferramenta chamada de especímetro. Vou passando a lateral pelo equipamento e marcando a sua espessura, e depois, com uma raspilha, eu removo o excesso de material até a lateral ficar uniformemente com 19 mm.
Imagem 03 – Acertando a espessura das laterais.



Para dobrar as laterais no formato do violão usamos um ferro que esquenta, específico para a luteria, chamado ferro de dobar. Este ferro tem um Dimer e se sabe que ele está na temperatura exata, quando se espirra aguar sobre ele e a água forma uma bolinhas que quicam sobre o ferro antes de evaporar. É muito importante que se tenha definido bem qual parte da lateral vai ficar para dentro e para fora do violão e qual extremidade vai ficar para cima e para baixo, pois uma vez dobrada, pois uma vez dobrada não é mais possível inverter os lados.
Se começa a dobrar as laterais do violão pela cintura, a parte mais estreita, no centro do violão, pois esta é a curva mais fechada, no caso deste instrumento. Ao dobrar a lateral, primeiro se molha um pouco a madeira com um borrifador, e encosta a madeira no ferro com uma leve tensão, fazendo um pequeno movimento lateral, e sem deixar por muito tempo, para evitar que a madeira queime. Vá fazendo as curvas aos poucos e sempre conferindo se ela cabe no molde, se precisar curvar mais repita o processo, se a curva bater vá um pouco para o lado. Eu sempre fiz primeiro o topo e depois a parte de baixo, mas não sei se isso realmente importa muito, mas é importante sempre fazer tudo em uma direção primeiro e depois fazer o outro lado, e evite ficar indo e voltando, pois isso didficulta o trabalho. Sempre mantenha a lateral perpendicular ao ferro na hora de dobrar, caso contrario a lateral vai entortar.
Pessoalmente achei dobrar as laterais a etapa mais difícil na construção do violão, mas com um pouco de experiência o trabalho vai ficando muito mais fácil. Depois de dobrar as laterais é muito importante que elas sejam sempre mantidas dentro da forma, pois podem acabar desdobrando se não forem guardadas desta forma.
Imagem 04 – Dobrando as laterais o violão.


Com as duas laterais dobradas, bastou serrar as sobras na linha central. Que eu fiz com as laterais dentro da froma mesmo, porém, uma por vez. Para reforçar as emendas, há um taco colado na parte de cima e de de baixo, sendo a de cima mais grosso, pois ainda vai sustentar o braço do violão depois. O violão tem uma leve curvatura nas duas emendas e por isso o taco precisa ser arredondados, para acompanahr perfeitamente a curvatura do violão, fiz isso usando primeiro a plaina de dedo, e depois uma lixa colada na emenda onde o taco vai ser colado.
Imagens 5 – Fazendo a emenda das duas laterais.


Há uma estrutura na parte de dentro das laterais da caixa acústica, que chamamos de contra-faixas, que tem a função de aumentar a superfície de contato para a colagem do tempo e do fundo com as laterais. As contrafaixas são basicamente uma ripinha longa com vários cortes para permitir que ela se torna mais maleavel e se adapta a curvatura da lateral do violão. Primeiro foi feito um pequeno chanfro em uma das laterais da contra-faixa e depois foram feitos vários cortes, usando um jig na serra-fita. É importante regular a profundidade dos corte de acordo com a madeira, para que a sobra fique fina o suficiente para deixar a contrafaixa maleável, mas ainda grossa o suficiente para ter certa resitência.
Para evitar que a contra-faixa quebre durante o corte, colamos uma fita no lado oposto, que no pior dos casos ainda vai manter os pedaços unidos, caso a contra-faixas quebrar. Antes de colar a contrafaixa no interior das laterias, fazemos o etse a seco para ver se ela se curva o suficiente para acompanhar a curvatura da lateral, caso não esteja flexível o suficiente, usamos o ferro de dobrar para aumentar um pouco a curvatura do memso. Para prensar a contra-faixa no momento da colágem existem várias possibilidades, o uso de cotonetes, grampos com elásticos ou molas de colchão, eu acabei optando po esta última.
Imagem 06 – Fazendo e colando as contra-faixas.



