Introdução
O Ébano Africano (Diospyros crassiflora) é uma das madeiras mais utilizadas em escalas de violão devido à sua alta dureza, superfície lisa e conforto ao toque, além de sua característica cor preta, frequentemente associada a instrumentos de maior qualidade. No entanto, seu alto custo limita o uso, especialmente quando comparado ao ipê (Handroanthus spp.), uma madeira abundante no Brasil, com dureza elevada e potencial para aplicação em escalas.
TABELA 1. Comparação das características do Ébano Africano e do Ipê.
| Nome popular | Nome científico | Dureza (Janka)* | Cor |
| Ébano | AfricanoDiospyros crassiflora | ~3.220 lbf | Preto intenso a preto-acinzentado, às vezes com veios discretos. |
| Ipê | Handroanthus spp. | ~3.680 lbf | Marrom-oliva a marrom escuro, podendo puxar para o esverdeado. |
* Dureza Janka: indica a resistência da madeira à penetração e ao desgaste (quanto maior o valor, mais dura a madeira).
O ipê é uma madeira abundante no Brasil e amplamente utilizada na construção de decks, o que torna seu custo significativamente menor quando comparado ao do ébano. Enquanto uma escala de ébano pode custar entre R$ 300,00 e R$ 500,00, uma escala feita a partir de tábuas de ipê pode custar poucos reais. Apesar de sua alta dureza, a madeira é menos valorizada em escalas devido à sua cor e à liberação de ipeína, um pó amarelo que pode permanecer na madeira mesmo após a aplicação do acabamento.
Imagem 1. Comparação da aparência do Ébano com o Ipê.


Desenvolvimento
Com o objetivo de escurecer a madeira de ipê e aproximar sua aparência da do ébano africano, foi realizado um experimento de tratamento térmico, no qual a madeira foi submetida a aquecimento controlado em forno doméstico por um determinado período. O tratamento foi conduzido a uma temperatura de 280 °C, com a peça sendo virada a cada 15 minutos, a fim de garantir um aquecimento mais uniforme em todas as faces. Observou-se que a madeira passou a apresentar um escurecimento homogêneo após aproximadamente uma hora e meia de exposição ao calor.
Imagem 2. Comparação da aparência da madeira antes, durante e após o tratamento.




Para avaliar se o tratamento térmico havia atuado apenas superficialmente ou também na parte interna da madeira, após esse período a peça foi serrada longitudinalmente ao meio. Na análise visual, foi possível observar que a coloração escura não se restringiu à superfície exposta ao calor, mas também atingiu a região interna da madeira, indicando que o tratamento teve efeito além da camada superficial.
Imagem 3. Efeito do tratamento na parte interna da madeira

Com o intuito de verificar se um tempo maior de exposição ao calor traria benefícios adicionais ao escurecimento, apenas uma das metades foi submetida a mais 30 minutos de tratamento térmico, totalizando duas horas no forno. Em seguida, ambas as peças foram comparadas lado a lado.
Imagem 4. Comparação da madeira com tratamento de uma hora e meia (esquerda) e duas horas (direita) no forno.



Visualmente, a diferença de coloração entre a madeira tratada por uma hora e meia e a tratada por duas horas mostrou-se mínima logo após a retirada do forno. Após o lixamento, essa diferença tornou-se levemente mais perceptível, com a peça submetida a maior tempo de tratamento apresentando tonalidade discretamente mais escura. No entanto, após a aplicação de óleo de peroba como acabamento, ambas as amostras adquiriram uma coloração praticamente preta, tornando-se visualmente indistinguíveis entre si.
Após o lixamento, foi realizado também um pequeno entalhe em ambas as peças, para verificar se o escurecimento era apenas superficial ou se havia atingido toda a espessura da madeira. Na amostra já acabada com óleo, o entalhe tornou-se difícil de ser identificado visualmente, uma vez que sua coloração apresentou-se tão escura quanto o restante da peça, reforçando a evidência de que o tratamento térmico afetou a madeira de forma uniforme.
Conclusão
O tratamento térmico realizado com o objetivo de escurecer a madeira de ipê mostrou-se eficiente, e embora a madeira não apresente coloração completamente preta imediatamente após o lixamento, ela passa a adquirir essa tonalidade após a aplicação de óleo de peroba. A partir do momento em que a madeira já se encontra externamente escurecida, o tratamento pode ser considerado concluído, não sendo observados benefícios visuais relevantes em mantê-la por mais tempo no forno, uma vez que o aumento do tempo de exposição não resultou em diferenças significativas na aparência final da madeira.
É sabido que tratamentos térmicos podem provocar reduções nas propriedades mecânicas da madeira; contudo, em uma avaliação visual e tátil, a madeira tratada aparentou manter a alta dureza característica do ipê. Ainda assim, para uma avaliação conclusiva sobre o impacto desse processo na dureza e em outras propriedades físico-mecânicas, seriam necessários ensaios específicos e medições quantitativas, que não fizeram parte deste experimento. Apesar disso, os resultados obtidos indicam que o tratamento térmico representa uma alternativa viável e de baixo custo para o uso do ipê em aplicações onde a estética do ébano é desejada, como na confecção de escalas para instrumentos musicais.

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